WikiLeaks e a Declaração de Independência do Ciberespaço

 

As complicações recentes do caso WikiLeaks me fizeram lembrar este texto, escrito em 1996 (15 anos atrás!) por John Perry Barlow, fundador da Electronic Frontier Foundation.

O original em inglês pode ser lido aqui. Não desanime com o estilo pomposo. Leia até o fim.

Como as versões em português que achei na web continham muitos erros, ofereço aqui a minha tradução:

Uma Declaração de Independência do Ciberespaço

 

Governos do Mundo Industrial, aborrecidos gigantes de carne e de aço, eu venho do Ciberespaço, a nova morada da Mente. Em nome do futuro, peço que vocês, do passado, nos deixem em paz. Vocês não são bem-vindos entre nós. Vocês não têm soberania onde nós nos reunimos.

Não temos governo eleito, e tampouco é provável que venhamos a ter; então, dirijo-me a vocês com a mesma autoridade com a qual a própria liberdade sempre fala. Declaro que o espaço social global que estamos construindo é naturalmente independente das tiranias que vocês buscam nos impor. Vocês não têm o direito moral de nos governar; tampouco possuem qualquer método de aplicação de leis que tenhamos algum motivo real para temer.

Os governos derivam seus justos poderes a partir do consentimento dos governados. Vocês não solicitaram nem receberam o nosso. Nós não convidamos vocês. Vocês não nos conhecem, nem conhecem nosso mundo. O Ciberespaço não se situa dentro das suas fronteiras. Não pensem que vocês podem construí-lo, como se ele fosse um projeto público de construção civil. Vocês não podem. Ele é um ato da natureza, que se expande através das nossas ações coletivas.

Vocês não participaram das nossas grandes conversas socializadoras, nem criaram a riqueza dos nossos mercados. Vocês não conhecem nossa cultura, nossa ética, nem os códigos tácitos que já proporcionam à nossa sociedade mais ordem do que poderia ser obtida por qualquer uma das suas imposições.

Vocês alegam que há problemas entre nós que vocês precisam resolver. Usam esta alegação como desculpa para invadir nossos domínios. Muitos destes problemas não existem. Onde houver conflitos verdadeiros, onde houver erros, nós os identificaremos e os trataremos com os nossos meios. Estamos formando o nosso próprio Contrato Social. Esta gestão surgirá de acordo com as condições do nosso mundo, e não do seu. Nosso mundo é diferente.

O Ciberespaço consiste de transações, de relacionamentos, do próprio pensamento, posicionados como uma onda estacionária na teia das nossas comunicações. Nosso mundo é um mundo que está por toda parte e em nenhuma parte, mas não está onde vivem os corpos.

Estamos criando um mundo em que todos podem entrar, sem privilégios nem preconceitos decorrentes de raça, poder econômico, poderio militar ou posição social.

Estamos criando um mundo onde qualquer pessoa, em qualquer parte, pode expressar suas crenças, por mais singulares que sejam, sem medo de que lhe imponham o silêncio ou a conformidade.

Seus conceitos legais de propriedade, expressão, identidade, movimento e contexto não se aplicam a nós. Eles se baseiam na matéria, e não há matéria aqui.

Nossas identidades não têm corpo; então, ao contrário de vocês, não podemos obter ordem pela força física. Acreditamos que, a partir da ética, do interesse próprio esclarecido e da comunidade, nossa gestão emergirá. Nossas identidades podem estar distribuídas por muitas das suas jurisdições. A única lei que todas as nossas culturas constituintes reconheceriam, em geral, é a regra de ouro. Esperamos ser capazes de construir nossas soluções específicas com base nela. Mas não podemos aceitar as soluções que vocês tentam impor.

Nos Estados Unidos, vocês hoje criaram uma lei, o Telecommunications Reform Act, que repudia sua própria Constituição e que insulta os sonhos de Jefferson, Washington, Mill, Madison, DeToqueville, e Brandeis. Estes sonhos devem, agora, renascer em nós.

Vocês estão aterrorizados com seus próprios filhos, pois eles são nativos em um mundo no qual vocês sempre serão imigrantes. Porque vocês os temem, vocês confiam às suas burocracias as responsabilidades paternas que vocês são covardes demais para enfrentar sozinhos. No nosso mundo, todos os sentimentos e expressões de humanidade, do degradante ao angelical, fazem parte de um todo integrado, o diálogo global dos bits. Não podemos separar o ar que sufoca do ar que sustenta as asas que voam.

Na China, Alemanha, França, Rússia, Cingapura, Itália e nos Estados Unidos, vocês estão tentando rechaçar o vírus da liberdade através da construção de casamatas nas fronteiras do Ciberespaço. Isto pode deter o contágio por algum tempo, mas não funcionará em um mundo que logo estará coberto pela mídia eletrônica.

Suas indústrias da informação, cada vez mais obsoletas, pretendem perpetuar a si mesmas propondo leis, na América e em outros lugares, que alegam ser proprietárias do discurso pelo mundo afora. Estas leis pretendem declarar que as idéias são apenas mais um produto industrial, tão pouco nobre como, por exemplo, o ferro gusa. No nosso mundo, tudo que a mente humana é capaz de criar pode ser infinitamente reproduzido e distribuído sem custo. A transmissão global do pensamento não requer mais as suas fábricas para se concretizar.

Estas medidas, cada vez mais hostis e coloniais, nos colocam na mesma posição que os amantes da liberdade e da autodeterminação do passado, que precisaram rejeitar as autoridades de potências distantes e desinformadas. Precisamos declarar nossas identidades virtuais imunes à sua soberania, ainda que que continuemos a consentir seu mandato sobre nossos corpos. Vamos nos distribuir por todo o Planeta, para que ninguém possa dar voz de prisão aos nossos pensamentos.

Nós criaremos uma civilização da Mente no Ciberespaço. Que ela seja mais humana e justa do que o mundo que os seus governos fizeram.

Davos, Suíça, 8 de fevereiro de 1996


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