Por que o Brasil é menos Alemanha e mais Uruguai

Em agosto de 1961, há 50 anos, o muro de Berlim foi construído. Este mês, jovens em toda a Alemanha — no mundo inteiro, aliás — lembram a data e o seu significado histórico: o início de um período terrível na vida de uma geração de alemães.

Em agosto de 1961, há 50 anos, Jânio Quadros renunciou à presidência do Brasil. Esta renúncia foi um dos principais eventos na sequência que culminou no famigerado golpe militar de 1964 e em cerca de 20 anos de uma ditadura sangrenta. Este mês, o que estão fazendo os jovens em todo o Brasil? Algum deles sabe o suficiente de história do Brasil para lembrar o fato? Os meios de comunicação brasileiros, entre cujas missões deveria estar a preservação da memória do país, fizeram alguma coisa para lembrar a data e situá-la no contexto correto, para que episódios vergonhosos da nossa história não se repitam?

Na edição de hoje do jornal carioca O Globo, na singela seção intitulada “Há 50 anos”, que divide a penúltima página do Segundo Caderno com o horóscopo, os quadrinhos e as palavras cruzadas, podemos ler um trecho do editorial de 26 de agosto de 1961. Quando se sabe o que veio a acontecer nos anos seguintes, entendemos por que devemos pensar bem antes de confiar em jornais. Ou em políticos. Ou nas forças armadas.

“O povo brasileiro, entregue ontem rotineiramente aos seus trabalhos e canseiras, foi colhido às primeiras horas da tarde de profunda surpresa pela renúncia do ilustre Sr. Jânio Quadros à Presidência da República.

Tudo se poderia esperar nestes tempos incertos, menos que o chefe da Nação, elevado ao poder por imensa maioria de votos, viesse a resignar o cargo quando praticamente nenhuma oposição organizada contra ele existe dentro e fora do Congresso. Menos ainda no seio das Classes Armadas, voltadas exclusivamente para suas atividades profissionais.

Nossa confiança nas Classes Armadas é a de todo o povo, certos de que elas saberão corresponder aos ideais da Pátria, à sua sede de ordem, de justiça, de progresso e liberdade.”

(O Globo, editorial “A Renúncia”, de 26 de agosto de 1961.)

Ao comparar os jovens alemães e os jovens brasileiros, lembro-me do que Eduardo Galeano escreveu sobre os jovens uruguaios:

“A máquina de retroceder

No início do século vinte, o Uruguai era um país do século vinte e um. No final do século vinte, o Uruguai é um país do século dezenove.

No reino do tédio, os bons costumes proíbem tudo aquilo que a rotina não impõe. Os homens sonham em se aposentar, e as mulheres sonham em se casar. Os jovens, culpados do delito de ser jovens, sofrem pena de solidão ou exílio, a menos que possam provar que são velhos.”

(Eduardo Galeano, El Libro de los Abrazos, Ed. Siglo Veintiuno, Argentina, 2010. Tradução minha.)

Não posso deixar de lamentar: o Brasil, com seus jovens velhos, está mais para Uruguai do que para Alemanha.

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2 thoughts on “Por que o Brasil é menos Alemanha e mais Uruguai

  1. Ótimo post!

    Realmente, o relato aparecer no jornal ao lado do horóscopo e dos quadrinhos mostra o valor que O Globo dá à nossa história e como forma a visão dos seus leitores.

    A Globo, em geral, tem grande responsabilidade pela formação de nossos “jovens velhos”.

    Não deixe de ver o video abaixo!

    Direito de resposta Brizola x TV Globo

    Direito de resposta Brizola x Globo, lida por Cid Moreira no Jornal Nacional em 15/03/1994.

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